A INDÚSTRIA DA CANNABIS MEDICINAL CRESCE NA COLÔMBIA



A INDÚSTRIA DA CANNABIS MEDICINAL CRESCE NA COLÔMBIA

A INDÚSTRIA DA CANNABIS MEDICINAL CRESCE NA COLÔMBIA
  • Compartilhe esse post
  • Compartilhar no Facebook00
  • Compartilhar no Google Plus00
  • Compartilhar no Twitter
País busca se posicionar na vanguarda do cultivo e produção da planta

A palavra Sogamoso vem de um vocábulo indígena que significa "morada do sol". É um dos lugares na Colômbia com melhor radiação solar, uma grande vantagem para atuar no novo mercado mundial da cannabis, o legalizado. Estar na linha equatorial permite 12 horas de luz natural todo o ano, para a alegria das colheitas. Ali tem sua plantação a empresa Clever Leaves, que quer participar com força do negócio mundial da cannabis medicinal que, junto com o uso recreativo, pode chegar a 50 bilhões de euros em 2025 (cerca de 220 bilhões de reais). A América Latina não vai querer perder a festa.

Na Colômbia, em 2016 foi aprovada uma legislação robusta e os custos operacionais são mais baixos do que em outros lugares, o que também beneficia o desenvolvimento do mercado verde. Além disso, o país, segundo exportador mundial de flores –depois da Holanda–, também transferiu esse conhecimento à indústria emergente que deslumbra o mundo.

"Estamos todos aprendendo”, responde, com humildade, Gustavo Escobar, cofundador e diretor de inovação da Clever Leaves, quando apresentado como a pessoa que mais entende de cannabis medicinal na Colômbia. Faz o comentário enquanto visita a plantação de sua empresa, um cultivo com elevada tecnologia no município de Pesca, entre as montanhas do Vale do Sogamoso, no departamento de Boyacá.

Com menos de três anos de existência, a empresa foi a primeira autorizada na Colômbia a enviar cannabis com fins cientistas ao Canadá e com a uruguaia Fotmer Life Sciences fechou acordos para se tornarem as primeiras latino-americanas a exportarem para a Europa, especificamente para a Alemanha. "Ainda são exportações com escopo de pesquisa, mas abrem caminho para o desenvolvimento comercial", explica Escobar, engenheiro de 37 anos com MBA. Um reflexo dos passos gigantes com que o nascente negócio avança.

A legalização do uso medicinal e científico da maconha –e até mesmo o recreativo– parece inexorável. O Canadá assumiu a dianteira. Em 33 Estados dos Estados Unidos seu consumo medicinal é legal e em uma dezena deles, também o recreativo. Em vários países da União Europeia, o uso terapêutico foi ampliado, e apenas na Alemanha são estimados cerca de 700.000 pacientes.

O Uruguai legalizou esse mercado em 2013 e a Colômbia, afetada pelo estigma do narcotráfico, busca se posicionar na vanguarda. Todos os envolvidos se esmeram em utilizar uma linguagem tão asséptica como as instalações criadas por todo o país –sempre falam de cannabis, não de maconha– e em repetir que se trata de medicina e ciência, os únicos usos autorizados. O potencial macroeconômico é enorme. Segundo algumas projeções, dentro de alguns anos poderá se equiparar à soma das exportações de flores e bananas da Colômbia.

Este país pode legalmente plantar mais de 40 toneladas, de acordo com as cotas concedidas pela Junta Internacional de Fiscalização de Entorpecentes (JIFE). "As cotas não são a capacidade real de produção, é uma expectativa", observa Andrés López Velasco, que até o mês passado era diretor do Fundo Nacional de Entorpecentes. "Aqui a comunidade médica tem sido muito receptiva, esta foi uma grande diferença", diz ele, apontando outros sinais promissores.

Em conformidade com as normas, o perímetro do cultivo da Clever Leaves em Sogamoso tem uma tripla barreira: arame farpado, cerca eléctrica e sensores infravermelhos, além de um sistema de vigilância com 154 câmeras de vídeo. A rastreabilidade de cada planta garante que nenhuma possa ser desviada. As estufas aproveitam 90% da água natural com um sofisticado sistema de irrigação israelense.

Menos de um ano e meio atrás, a área não passava de terra improdutiva. Hoje as projeções são atualizadas constantemente. Os 10 hectares de produção serão 15 em julho e 25 no final do ano. Nas etapas finais, os trabalhadores desfolham as plantas até deixar somente a flor, que concentra seus ingredientes ativos, os cannabinoides. São mais de cem, com propriedades ainda inexploradas, mas as principais são o THC (psicoativo) e o CBD.

O laboratório de extração, com grau farmacêutico, foi montado em um parque industrial a meio caminho entre Sogamoso e Bogotá. De lá, podem sair cerca de 3.000 litros de óleo de cannabis. A cadeia de produção combina talento e conhecimento recrutado do agronegócio e da indústria farmacêutica, bem como pessoal familiarizado com a mística da cannabis, incluindo os chamados master growers, especialistas nos ciclos do cultivo.

A INDÚSTRIA DA CANNABIS MEDICINAL CRESCE NA COLÔMBIA

Também atrai estrangeiros, como a espanhola Maria Corujo. Esta doutora em biotecnologia vegetal, de 33 anos, está encarregada de pesquisar a genética das plantas para selecionar aquelas que funcionam melhor para o desenvolvimento do uso médico. "É um desafio, porque há muito desconhecimento, mas é motivador", explica. "É uma nova indústria na Colômbia, mas também no mundo."

A Clever Leaves, que começou com cinco funcionários e hoje se aproxima de 400, foi uma das primeiras empresas a obter as licenças, em 2016. Mas não é a única andorinha anunciando o verão cannábico em um país mais conhecido no mundo por seu excelente café. As empresas costumam ser alianças de capital colombiano e estrangeiro, com forte participação do Canadá, explica Rodrigo Arcila, presidente da Associação Colombiana de Indústrias de Cannabis (Asocolcanna), que em menos de dois anos passou de seis a 30 membros. "Não podemos perder a oportunidade histórica que se apresenta à Colômbia para ser líder nisso", avalia.

“Será o grande exportador da América Latina enquanto o México não legalizar", previu recentemente o ex-presidente mexicano Vicente Fox, membro do conselho diretivo da Khiron, outra das importantes empresas. O Governo já aprovou licenças em 11 dos 32 departamentos, de acordo com informações da ProColombia, que destaca os investimentos das canadenses Cannavida e Pharmacielo –que, como a Khiron, está na Bolsa de Toronto.

O órgão público responsável pela promoção do comércio e turismo no exterior também aponta o Canadá, Alemanha, Austrália e México como grandes "oportunidades" de exportação. Ninguém quer ficar de fora da febre do ouro verde.

O DIFÍCIL DEBATE DAS DROGAS

"A Colômbia sofreu como nenhum outro país os danos causados pelo tráfico de drogas, por isso, as drogas provocam debates acalorados. A bonança da cannabis que é vislumbrada tem sua origem em um regulamento aprovado durante o Governo de Juan Manuel Santos (2010-2018). A regulamentação estrita contempla usos medicinais e científicos mediante licenças emitidas pelos Ministérios da Saúde e da Justiça. O ex-presidente assumiu em várias ocasiões que a chamada guerra contra as drogas fracassou e, em seu discurso de aceitação do Prêmio Nobel da Paz, defendeu repensar a estratégia global com base em evidências.

O conservador Iván Duque, que chegou ao poder em agosto, retornou a abordagem proibicionista, que põe a ênfase tanto na erradicação forçada das plantações de coca como na criminalização do consumo. No entanto, ele também defende todos os tipos de empreendimentos e vem se mostrando próximo de corporações e empreendedores. No mês passado, um bloco de uma dezena de congressistas de diferentes partidos anunciou que trabalhará na construção de uma nova política de drogas, que inclui a regulamentação do uso recreativo da maconha na Colômbia. A indústria da cannabis medicinal avança alheia às turbulências ideológicas. "Caberá aos legisladores dizerem se daremos esse passo", afirma Rodrigo Arcila, presidente da Associação Colombiana das Indústrias da Cannabis (Asocolcanna)."

FONTE: https://brasil.elpais.com/brasil/2019/06/06/internacional/1559819085_182292.html