O Uruguai foi o primeiro país do mundo a legalizar o mercado da cannabis em seu território – em 2014 – e, quando tomou essa decisão, assumiu um desafio que persiste até hoje: disputar as vendas com traficantes.

Como para outros países que, posteriormente, adotaram essa medida, a decisão também foi uma estratégia contra o narcotráfico, disse o então presidente uruguaio José Mujica. Alguns anos após a aprovação da lei que chamou a atenção internacional, o país sul-americano apresenta dados ambíguos sobre o assunto.

Estimativas oficiais divulgadas em 2019 apontaram que a regulamentação da cannabis para o uso adulto lucrou mais de US$ 22 milhões (cerca de R$ 90 milhões) que iriam para o mercado ilegal, apenas com o mercado interno. Em agosto, o presidente Luis Lacalle Pou, aprovou algumas flexibilizações para também atuarem com mais assertividade na exportação do cânhamo.

A aposta para o mercado é tão séria que o país aprovou US$60 milhões para 78 projetos para o seguimento. Ainda há outros US$53,5 milhões para outros projetos que buscam a licença. Em 2019, a indústria do país exportou US$1,9 bilhão e, com a aprovação destes novos decretos para facilitar a exportação, o objetivo é impulsionar ainda mais a indústria e aumentar a cadeia de empregos gerados.

Dados mostram que aproximadamente 50 plantações de cânhamo no Uruguai empregam cerca de 10 pessoas por hectare. Na última safra, 250 hectares da planta foram contabilizados no país.

A experiência econômica do país vizinho chamou a atenção de deputados brasileiros, que se reuniram com autoridades uruguaias do mercado de cannabis, no mês de agosto, para buscar novas soluções para o mercado brasileiro e entender como funcionam as regras para o mercado de cannabis do Uruguai.

Dentre os temas abordados na reunião, foi questionada a relação do governo com associações, já que no país, as entidades podem cultivar e desenvolver produtos – sempre com supervisão de farmacêuticos. Essa liberdade facilita o acesso dos pacientes ao produto e garante a qualidade.

O Presidente da Câmara de Empresas de Cannabis Medicinal, Marco Algorta, argumentou que no Brasil o cultivo deveria ser mais acessível para as associações. Para ele, o foco da regularização deve ser e o paciente. Também acrescentou que a planta deve ser inserida no Sistema Único de Saúde (SUS), para viabilizar o uso e os benefícios da planta a quem não tem condições de pagar caro por isso.

No entanto, alguns buracos na legislação brasileira também atraem olhares do Uruguai: o Brasil regulamentou a venda de derivados para fins medicinais, porém não legalizou o plantio, o que gerou um problema de matéria-prima. De tal forma, investidores do país vizinho miram o mercado brasileiro como uma oportunidade.

O empresário brasileiro Jonas Rossatto, que criou um aplicativo no Uruguai que conseguiu acabar com as filas de compra para o uso adulto da cannabis, está interessado no setor de seu país de origem. Além de investidor no ramo de tecnologia e de turismo canábico no Uruguai, ele agora planeja ampliar seus investimentos pelo Brasil com a liberação do comércio de medicamentos à base de canabidiol.